ESTREIA  

Um vírgula, um número, um erro

"Profissionais da saúde: enquanto estiverem cuidando de uma vida, cuidem dessa vida e não da sua. Como profissional da comunicação, não posso errar uma vírgula. Imaginem vocês, cuidando de vidas"

Jonas Laskouski

 

Bora deixar um pouco a política de lado e falar de saúde e Saúde.

Com 39º de febre, dor na cabeça e nuca, vômito e vermelhidão no corpo, precisei de atendimento médico ontem, quarta-feira. Optei pela Urgência do Trianon, onde anteriormente já havia sido bem atendido. Muito bem atendido, inclusive. E não que tenha sido desta vez. Novamente fui muito bem tratado. Mas um detalhe me chamou a atenção, e me permite, com toda lógica, fazer essa observação.

Antes de mais nada, que fique claro que não estou generalizando o comprometimento dos profissionais da Saúde, nem o atendimento, nem o cuidado. Aliás, tenho amigos e conhecidos que trabalham na rede municipal e que são excelentes no que fazem.

Portanto, repito: não generalizem. Mas o alerta, fica.

Como é de praxe, ao chegar em uma Unidade Básica de Saúde, o paciente passa por uma pré-consulta, onde é avaliado e tem o “problema” classificado, o que vai determinar se necessita de pronto-atendimento ou se pode esperar um pouco mais.

Entro na sala para a classificação de risco. Nela, dois profissionais. O rapaz que me atende pergunta o que está acontecendo, o que estou sentindo e o porquê de eu estar ali. Enquanto isso, no canto da sala, a outra profissional, com as pernas esticadas em cima da balança, mexe no seu celular, completamente absorta ao que se passa naquele ambiente. Dou todos os detalhes sobre minha saúde, respondendo ao que o rapaz pergunta. E ela ali.

Ao perguntar sobre meu peso, digo que estou abaixo do normal, e ele então pede para que eu suba na balança para confirmarmos. Vou até a balança e quem verifica é a profissional do celular, que tira os pés de cima do equipamento praticamente sem tirar os olhos da tela do seu smartphone. Mexe aqui, mexe ali, ela diz: “53 quilos”.

“53 quilos?!”, exclamo eu, incrédulo com o resultado. “Impossível, moça. Sei que estou magro, mas não nesse ponto”.

Ela olha novamente e diz dando risada: “Ah, é 63, haha. Vi errado, haha”.

Vi errado, senhora? Não me contive e disse que não era motivo de riso, nem de brincadeira. Alguns vão dizer que estou de mimimi ou que estou fazendo uma tempestade em copo d’água. Mas não. “Ah, mas ela errou apenas no peso”. Vírgula, minha gente.

Falando em vírgula, se esse sinal de pontuação pode fazer toda a diferença num texto, podendo mudar completamente o sentido da frase, imaginem um número num ambiente médico, de pré-diagnóstico. Até onde eu sei, o peso é um dos parâmetros indicativos para a constatação de possíveis diagnósticos.

E se é um paciente menos atento? E se a família está nervosa e também não se atenta e fica por isso mesmo? E se a pessoa erra, através de um número, em uma situação mais séria, onde precisa estar mais atenta ainda. Estamos falando de vidas, de saúde.

Em junho desse ano, uma vírgula não observada deixou uma criança de três aninhos em estado vegetativo. A suspeita é que, após atendimento médico, houve uma superdosagem de medicamento. Ao invés de 1,5ml foram aplicados 15ml. O fato foi notícia em todas as mídias guarapuavanas.

Logo após o fato, Gabriel precisou ser encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Instituto Virmond (Hospital Santa Tereza), onde permaneceu por 25 dias. Devido a sua situação, seus pais tiveram que deixar os empregos para cuidar do menino e agora contam com a ajuda da comunidade e dos amigos para poder se manter.

Uma vírgula. Um número. Um erro.

Então, senhores e senhoras profissionais da saúde, enquanto estiverem cuidando de uma vida, cuidem dessa vida e não da sua. O recado é esse. Como profissional da comunicação, não posso errar uma vírgula. Imaginem, vocês cuidando de vidas.

Mais um recado sobre a situação do pequeno Gabriel. Quem puder ajudar o casal com doações de alimentos e também nos custos do tratamento de Gabriel, a família está precisando de ajuda. Se puder, entre em contato pelo telefone (42) 9.9952-1948 e veja antes o que eles estão precisando. Eles moram na rua Antônio Gonçalves da Rosa, 722, no bairro Alto Cascavel.

Obrigado pela atenção. Atenção, aliás, se faz cada vez mais necessária. Em qualquer área. Em qualquer situação.