Entrevista  

Após cinco anos de árduo trabalho, Guarapuava sai da lista negra das cidades onde mais se matam mulheres

A Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres, criada em 2013 e hoje comandada por Priscila Schran, tem papel fundamental nessa reversão

“Tínhamos um índice vergonhoso e superamos isso com políticas públicas de enfrentamento”, comemora a secretária (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Por João Muniz

Guarapuava é uma das poucas cidades do país que conta com uma secretaria municipal de Políticas Públicas para Mulheres. A jovem jornalista e secretária da pasta, Priscila Schran de Lima, e sua engajada equipe de trabalho tiraram a cidade da lista negra da violência contra as mulheres, diminuindo de forma expressiva os índices de mortes e ocorrências. Falando exclusivamente ao Extra Guarapuava, ela expressa os bons resultados e revela frustrações.

 

Jornal Extra Guarapuava – Atuando nessas questões, qual sua visão sobre os problemas crônicos? A sociedade ainda não entendeu que é preciso mudar essa cultura machista?

Priscila Schran – A violência contra a mulher é oriunda de raízes culturais, e somente a partir de 2006 é que passou a ser considerada crime. Antes disso, as agressões contra elas eram uma forma do homem defender a sua própria honra, muitas vezes até legitimada em legislações. Até 2002, tínhamos o “pátrio poder”, que era exercido dentro de uma família pelo pai. Aos poucos, a legislação vem se adequando às mudanças culturais. Aqui mesmo em Guarapuava, as mulheres tiveram a educação voltada somente aos cuidados domésticos. Inclusive, em colégios da cidade existiam aulas de cuidados domésticos na década de 1950. No dia a dia, nós percebemos as dificuldades das mulheres no acesso às políticas públicas, à educação, profissionalização e até mesmo sobre o direito de votar que aconteceu de maneira muito tardia no país, onde por décadas foi pregado que o homem seria o provedor no lar e era dele a responsabilidade de bancar o sustento da família. A nossa luta é correr atrás para corrigir os erros do sistema que deixou a classe feminina de fora e não permitiu que elas tivessem uma atuação mais presente nos assuntos do cotidiano. Com isso, a mulher sempre foi tratada com inferioridade tanto na relação de família, como no conceito perante a sociedade. No passado, muitos homens ao cometer uma agressão alegavam na Justiça que tinham apenas praticado um corretivo na companheira. O combate à violência está em nível cultural e isso faz com que as mudanças se tornem mais difíceis e demoradas de acontecer.

 

Neste contexto, a violência contra a mulher aumentou ou regrediu? De que forma as políticas públicas influenciam no trabalho de vocês?

Priscila Schran – Olha, eu sempre analiso que quanto mais mulheres denunciam e buscam ajuda, mostram que elas estão enxergando possibilidades desse relacionamento que é abusivo e violento. Por isso, a importância das redes de enfrentamento contra a violência, com políticas públicas. Nós temos dados da Delegacia da Mulher dos 22 municípios da região que mostram que o número de feminicídios foi reduzido em 52%. Em 2018, nós tivemos um único caso, que foi da Tatiane, infelizmente. Todas as mulheres que foram atendidas pela rede de enfrentamento e a Secretaria estão vivas. Temos uma equipe comprometida e dedicada e eu sempre digo que a cada caso nós precisamos dar o nosso melhor, para que essa mulher tenha todas as possibilidades para sanar qualquer situação de violência. Isso envolve o terapêutico, psicológico, muitas vezes alimentação, acompanhamento jurídico, assistência social para projetos habitacionais, escolaridade, encaminhamento para divisão de cursos, onde são exploradas as habilidades delas e em quais atividades do mercado a pessoa é melhor inserida em tarefas similares as do lar, como auxiliar de serviços gerais, restaurantes e no setor estético. São atividades que mesmo consideradas simples, podem ajudar a construir a autonomia financeira de muitas dessas vítimas da violência no lar.

 

Em quais classes sociais é maior o registro de ocorrências?

Priscila Schran – Eu sempre comento que a questão da violência contra mulher, na maioria das vezes, é pelo fato dela ser do sexo feminino. Isso está inserido em todas as classes sociais, independentemente de ter instrução ou não. Resultado dessa cultura machista, que está nas mais diversas classes sociais. Ressaltamos que mulheres que têm um poder aquisitivo maior, também buscam os serviços de apoio oferecidos pela Secretaria.

 

“É inadmissível que o município tenha uma secretaria para este setor e as mulheres continuarem sofrendo preconceito e discriminação nas repartições públicas, com piadinhas e comportamentos machistas. A piada ofende e magoa as pessoas”.

 

Poucos municípios do Paraná têm uma secretaria voltada para esta área. O trabalho de vocês contribuiu para a popularidade da gestão do prefeito Cesar Filho?

Priscila Schran – Eu me sinto muito grata e feliz pelo engajamento do Cesar na pauta para o setor. Quando ele convidou a minha mãe (Eva), para ser a vice-prefeita, ela já fazia parte do engajamento contra a violência e mesmo no mandato de vereadora, ela sempre trouxe o assunto nas pautas do Legislativo Municipal. A implantação da secretaria fazia parte do plano de governo, que foi consolidada em Projeto de Lei em apenas 90 dias de governo do 1º mandato do Cesar. Uma das primeiras ações foi a ampliação da licença maternidade das servidoras, de 120 para 180 dias. Para nós, o dia 28 de março de 2013 é um marco histórico, com a criação oficial da secretaria. Isso também nos provou que o prefeito Cesar é um líder que acredita nos projetos inovadores. Ele sempre incentivou e acreditou no nosso trabalho. Eu lembro que até 2012, Guarapuava estava no Mapa da Violência no país, pelos altos índices de violência contra a mulher, onde nos encontrávamos entre as 100 cidades do Brasil onde mais se assassinavam mulheres. Imagina! São cinco mil municípios e nós entre as 100 cidades com índice vergonhoso. O Cesar contava que muito gestor olhava e dizia ‘esconde isso’, esse tipo de coisa não se pode dar visibilidade. Ele foi ao contrário dessa visão retrógrada, encarou de frente e hoje os resultados são expressivos, com inúmeras vidas que preservamos.

 

Quais são seus próximos objetivos e campanhas à frente da secretaria?

Priscila Schran – Será de combate ao machismo dentro das repartições públicas. Isso foi prontamente aceito pelo prefeito, que considerou inadmissível o município ter uma secretaria para este setor e as mulheres continuarem sofrendo preconceito e discriminação, com piadinhas e comportamentos machistas. Se a gestão tem esse objetivo de combater qualquer tipo de violência contra a mulher, os servidores públicos também precisam se adequar e ter o entendimento nesse direcionamento. A piada, a brincadeira, ofende, magoa as pessoas, mesmo que muitas vezes a mulher não demonstre isso.

 

Percebe-se que o seu trabalho é de muita discrição. Qual a mensagem para aquela mulher que está sofrendo algum tipo de violência? 

Priscila Schran – O principal é essa mulher saber que ela não está sozinha. A pessoa que sofre violência, também sofre isolamento. Muitas vezes a família não apoia mais – pelo fato da pessoa não ter se libertado de um certo relacionamento – muitas vezes perdem amigos(as). Essa pessoa está amedrontada, temendo uma violência maior. Quero dizer que você mulher que se encontra nesta situação, você não está sozinha. Se não quer ir denunciar num primeiro momento, pode ir na secretaria. A pessoa não precisa ter um boletim de ocorrência para ter o nosso atendimento e apoio. Lá, ela terá toda segurança e somente quando se sentir segura deverá denunciar. Isso certamente será com menos traumas. Precisamos fazer valer a Lei Maria da Penha, mas muitas vezes precisamos fazer isso sem o julgamento e respeitando o tempo de cada pessoa vitimada. De nós, elas sempre terão muita acolhida e muito amor.