Entrevista  

“A comunidade teve um papel essencial no fortalecimento das universidades públicas”, diz Aldo Bona

Mesmo com os conflitos entre comunidade docente e governo, o reitor da Unicentro aponta importantes conquistas

“É preciso virar a página da troca de acusações recíprocas entre governo e universidades. O governador precisa estar presente em todas as estruturas de governo”, afirma Aldo (Foto: Arquivo Unicentro)

 

João Muniz

Nesta edição especial dos 199 anos de Guarapuava, um de nossos destaques é a área universitária pública/privada, que nos últimos anos obteve importantes avanços com vindas de diversas empresas, institutos e instituições de ensino, como também a abertura de novos cursos de graduação e formação acadêmica. Entre eles, o de Medicina, conquistas do Centro Universitário Campo Real e da Universidade Estadual do Centro-Oeste. Em entrevista exclusiva ao Extra Guarapuava, o reitor da Unicentro, Aldo Nelson Bona, fala sobre esses avanços no setor educacional, que consolida a cidade como polo e centro universitário regional.

Jornal Extra Guarapuava – O senhor assumiu a reitoria da Unicentro num período onde as universidades estaduais enfrentaram conflitos com o governo do Estado e perda de receitas. Como vê a instituição hoje?

Aldo Bona – Assumi a reitoria em 2012, após ter atuado oito anos como vice-reitor. Tinha, portanto, um bom conhecimento da realidade institucional e das relações com o governo do Estado. Vínhamos de um governo que, apesar do pouco diálogo, tinha uma determinada visão sobre a importância das instituições públicas e, com isso, desenvolvia políticas continuadas de investimentos, o que permitiu previsibilidade no planejamento institucional e grandes realizações em termos de ampliação da infraestrutura da universidade para dar suporte ao rápido crescimento da instituição.

Quando assumi como reitor passei a conviver com um governo em que tivemos muito diálogo. Resolvemos questões importantes voltadas, sobretudo, à carreira de professores e funcionários. Construímos cenários de recuperações de perdas salariais e de revigoração dos planos de carreira. Avançamos muito no macro, mas começamos a perder muito no micro.

A segunda gestão do governador Beto Richa, com a chegada do secretário de Fazenda, Mauro Ricardo, foi marcada por grandes conflitos não só com as universidades, mas com as instituições públicas como um todo. A política do referido secretário de minimização da máquina pública, além de conflitos e desgastes gerou a desconstrução de muita coisa. Tivemos que contar com o apoio da comunidade para evitar que a universidade tivesse que fechar as portas por falta de condições de manter os serviços básicos de limpeza, vigilância e zeladoria, por exemplo.

Isso tudo representou um cenário muito difícil com prejuízos para as universidades e para o governo. Hoje, a Unicentro vive os resultados desses embates. Muitos ajustes internos foram feitos e muitas coisas precisam ser retomadas, o que julgamos possível com a reconstrução do diálogo com todas as instâncias do Governo. É preciso virar a página da troca de acusações recíprocas entre governo e universidades e construir uma agenda positiva pactuada com clareza entre governo e IEES, o que já começou a acontecer nestes meses de governo Cida Borghetti e poderá avançar fortemente no próximo. Não basta o governador ser uma pessoa do diálogo. É preciso que a postura do governador esteja presente em todas as estruturas do governo.

Qual sua expectativa e o que espera do novo secretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e do governador Ratinho Junior para o setor?

Aldo Bona – A primeira expectativa é a de que o Ensino Superior permaneça vinculado à Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, por uma questão estratégica tanto do ponto de vista político, como do ponto de vista técnico. Atualmente, mais de 90% de toda ciência brasileira é feita nas universidades, daí a sua clara vinculação à área de Ciência e Tecnologia.

A partir daí, o que se espera é que possamos construir com clareza uma pauta conjunta entre universidades e governo para o bem da sociedade. Somos em sete universidades estaduais, bem distribuídas geograficamente no território paranaense, o que representa um importante patrimônio do povo do Paraná. Todas podem contribuir muito com a construção e a execução das melhores políticas de governo. E temos condições de construir, com diálogo franco, um cenário favorável para isso.

Como reitor, quais cursos de graduação o senhor considera saturados e quais outros cursos a Unicentro tem capacidade de incorporar?

Aldo Bona – Não considero adequado falar em cursos saturados. O que temos é um maior ou menor prestígio de um curso em relação a outro, mas isso se liga mais à questão das expectativas em relação ao mercado de trabalho.

O que precisamos é redimensionar a formação em todos os cursos e não só na Unicentro, formando cidadãos preparados para uma sociedade múltipla, capazes de inovar e empreender, com a mentalidade voltada não apenas em aproveitar oportunidades, mas principalmente em criar oportunidades.

Nesse sentido, qualquer novo curso é sempre bem-vindo, porque representa a geração de novas oportunidades de formação e desenvolvimento.

O Plano de Desenvolvimento Institucional, PDI, prevê a possibilidade de crescimento em todas as áreas, com o reconhecimento de que a região precisa de avanços em formação na área tecnológica. Daí, também, a importância da UTFPR em Guarapuava.

Com mais de 14 mil acadêmicos, Guarapuava tem capacidade de abrigar novas instituições de ensino?

Aldo Bona – Sempre tem. Sabemos que Guarapuava se consolidou como um polo universitário de qualidade. Isso é bom, pois é comprovado que aqueles que cursam uma universidade tendem a ter melhores oportunidades e tendem a permanecer na região onde se formaram. Quanto mais oportunidades de formação superior Guarapuava oferecer, mais ela se consolidará como polo universitário. O que não se pode abrir mão, e a sociedade é muito importante nesse processo, é da questão da qualidade.

Pela sua postura e credibilidade, o senhor ganhou visibilidade a ponto de ser sondado como um dos possíveis sucessores do prefeito Cesar Silvestri Filho. Qual sua opinião sobre isso?

Aldo Bona – Sinto-me honrado com esta deferência e feliz por ter algum reconhecimento do trabalho desenvolvido na Unicentro por toda a nossa comunidade acadêmica. Quando o nome do reitor de uma Universidade é lembrado positivamente, isso significa que todos os que fazem o dia-a-dia da instituição merecem reconhecimento.

Quanto ao cenário político no município, penso ser muito prematuro qualquer especulação sobre sucessão nesse momento. O prefeito Cesar Filho é uma grande liderança estadual, tem feito um excelente trabalho como gestor público e merece todo o reconhecimento da sociedade guarapuavana. Sucedê-lo não será uma tarefa fácil para ninguém.

No cargo de reitor, o senhor se sente satisfeito com os resultados, almeja ainda alguns objetivos à frente da instituição de Ensino Superior?

Aldo Bona – Tem sido um período muito difícil para a gestão da universidade nesses últimos anos, o que não significa que eu não esteja satisfeito com os resultados obtidos. Ter mantido a instituição com qualidade e ter conseguido alguns avanços importantes com o trabalho de toda a comunidade acadêmica é algo bastante satisfatório. O planejamento inicial era o de fazer muito mais coisas, sobretudo voltadas à qualidade da graduação, o que passa, dentre outras coisas, por investimentos em infraestrutura, à diminuição da evasão e à relação com a comunidade. Os avanços que conseguimos nesses setores nos deixam com a sensação de que poderíamos e deveríamos ter avançado mais e, ao mesmo tempo, com a certeza de que continuaremos avançando.

Aldo Nelson Bona tem 48 anos, é casado com Mirian Fabiane Simões, e pai de Rafael (26) e Aldilana (15). Professor de Ensino Superior, com experiência de docência na área de Filosofia, com ênfase em Fundamentos Filosóficos da Educação em História e Filosofia da Ciência, possui em seu currículo graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (1992), mestrado em Educação pela Universidade Estadual do Centro-Oeste em convênio com a Universidade Estadual de Campinas (1997) e Doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense (2010). Atuou em diversas funções na administração da Unicentro, onde é o atual reitor. É, também, presidente da Câmara de Educação Superior do Conselho Estadual de Educação do Paraná, presidente do Conselho de Administração do Instituto de Tecnologia do Paraná, TECPAR, e membro do Conselho de Governo do Instituto para a Educação Superior na América Latina e no Caribe, IESALC, órgão vinculado à UNESCO.