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200 anos de fé, devoção e história

A paróquia e catedral Nossa Senhora de Belém completou o bicentenário no último dia 11 de novembro

Cléber Moletta (à convite do Extra Guarapuava)

Nos primeiros meses do ano de 1818, o padre Francisco das Chagas Lima viajava para São Paulo, capital da Província (Paraná era 5ª Comarca de São Paulo), para solicitar ao bispo Dom Matheus de Abreu Pereira a criação oficial da igreja nos Campos de Guarapuava. Padre Chagas chegou no ano de 1810, acompanhando a Real Expedição que iniciou o povoamento da região. Depois de oito anos trabalhando na catequese dos índios e com o sucesso da expedição de ocupação do território – depois de algumas missões fracassadas, o vigário sente a necessidade de criar formalmente a igreja. Sua ida para São Paulo é um primeiro ato para que no dia 11 de novembro daquele mesmo ano – 1818 – fosse criada a Freguesia de Nossa Senhora de Belém.

O pedido de padre Chagas é levado pelo Bispo Matheus ao conhecimento do rei de Portugal, Dom João VI. Naquela época, o Estado interferia nas decisões administrativas da Igreja Católica, que era a Igreja oficial da Coroa – chamado de regime de padroado. É Dom João VI que decreta, em agosto, e depois autoriza, com alvará, a instalação da igreja: está criada em 11 de novembro de 1818 a Freguesia Nossa Senhora de Belém.

“Hey por bem Erigir no Lugar de Atalaya de Guarapuava hua Igreja Paroquial com o Titulo, e Invocação de Nossa Senhora de Belem, com Pároco, Vigário Collado, e hum Coadjutor”, diz um trecho do Alvará, respeitando a grafia da época.

Freguesia é a primeira instância administrativa adotada na época. É a maneira formal de chamar a igreja. E junto com a recém-criada Freguesia cria-se uma estrutura administrativa para realização de vários registros civis como nascimentos, mortes, casamentos e reuniões públicas.

 

EM ATALAIA

No alvará, o local indicado para a instalação da igreja é o povoado de Atalaia – hoje região próxima ao distrito da Palmeirinha. Mas uma decisão de Padre Chagas e Antônio da Rocha Loures (Capitão Rocha) – comandante militar da expedição – causam uma mudança na localização da Freguesia.

“A escolha [do local] foi feita pelo Pe. Chagas acompanhado pelo Capitão Rocha. Tem um documento relatando direitinho. Eles estavam andando a cavalo e ele [Padre Chagas] diz ‘lá é um lugar bom’”, conta a memorialista Zilma Haick Dalla Vechia. A disponibilidade de água, pedras para construção e a paisagem são fatores que agradam o religioso.

No ano seguinte, no dia 9 de dezembro de 1819, o padre sai de Atalaia e vem morar no local onde atualmente está instalada a Catedral. Nesse momento é erguido um pequeno oratório, mas as celebrações dominicais da missa continuam sendo realizadas em Atalaia, onde permanecia a povoação. Na década de 1930, essa data foi adotada como aniversário da cidade – era época do prefeito Antônio Lustosa de Oliveira.

É somente em 1821 que todos os moradores brancos – portugueses – vêm morar no local onde está instalada a atual sede de Guarapuava.

Eram 118 pessoas (53 homens e 65 mulheres) que vieram de Atalaia para a nova povoação. Ainda segundo relatos deixados por Padre Chagas havia naquele ano 8 casas ‘maiúsculas’ e 6 ‘minúsculas’.

Os exatos motivos para mudanças de localização não são claros. Mas envolvem a geografia do lugar – facilidade de acesso à água, pedras, planície, beleza. Capitão Rocha não demonstra entusiasmo na mudança. “Não moverei coisa alguma”, ele chega a afirmar em correspondências em que trata da mudança, alegando aguardar ordens do comando para mudar a sede do povoamento.

Já em 1819, um Auto de Fundação estabelece, tal qual um plano diretor, as regras da cidade. Guarapuava começa planejada e com regras para construção e comportamentos. Depois da vinda de todos os portugueses para o novo povoamento e o fim de Atalaia, em 1825 – um incêndio devastou o lugar – toda a história de Guarapuava passa a ser contada no novo cenário.

 

 

Lugares marcados

No século XIX, os lugares da Igreja de Nossa Senhora de Belém eram pré-definidos para brancos, negros e religiosos. A divisão interna do templo era normal no período colonial e seguiu a divisão das classes sociais da época. Brancos, no centro. Em cima, nas laterais, ficavam as Irmandades ocupando cadeiras duplas, estofadas, compradas por seus usuários. Na parte de baixo, nos vãos abertos ficavam os escravos, em pé. Nas celebrações noturnas eles seguravam os candelabros, sustentando as velas para a iluminação. Essa divisão deixou de existir com o fim do período colonial.

 

Construções

O prédio histórico de Nossa Senhora de Belém tem cerca de 140 anos. A parte mais antiga da obra começou a ser construída por volta de 1840. Não há uma data precisa, mas a obra foi concluída nos idos do ano de 1880. Antes, outros dois modestos oratórios foram construídos. O primeiro, ainda no povoado de Atalaia, que deixou de existir em 1825. Próximo ao local onde está instalada a Igreja atualmente existiu outra capela – construção bastante modesta, erguida por volta do ano de 1921, que ficou em pé por algumas décadas. Hoje, além do prédio histórico, a comunidade tem a nova igreja com a invocação de Nossa Senhora de Belém: a nova catedral.

 

Cavalhadas

As Cavalhadas foram parte da Festa da Padroeira. Segundo a memorialista Gracita Gruber Marcondes, há registros de que em 1855 já era realizada a festa. O ano coincide com o período de construção e início de uso (mesmo com obra inacabada) do prédio histórico da Catedral Nossa Senhora de Belém. As Cavalhadas são parte do folclore português e simulam as lutas travadas entre mouros e cristãos, na Península Ibérica, durante o período da Guerra da Reconquista. Nos primeiros anos, foi realizada em frente à Igreja de Nossa Senhora de Belém, onde hoje está localizada a Praça 9 de Dezembro. Ainda segundo a professora Gracita, depois foram realizadas no Largo Sete (Colégio Carneiro Martins), Quartel Velho (Colégio Tupi Pinheiro), e no Largo da Capela São Sebastião.

 

Queda da torre

Você sabia que o prédio histórico da Catedral de Nossa Senhora de Belém tinha uma torre central? No projeto inicial, concluído por volta de 1880, uma torre com estilo de fortaleza estava centralizada na fachada da igreja. Quase 80 anos depois, ela ruiu. As obras de abertura da rua Senador Pinheiro Machado e, principalmente a construção do Campanário, aquela torre que sustenta o sino atualmente, ao lado da Igreja, abalaram o prédio histórico. Por volta de 1960, a torre foi demolida e a estrutura da Catedral precisou receber reforços.

 

Especial Rádio Cultura

A Rádio Cultura Fm 94,3 Mhz preparou um especial sobre os 200 anos da Paróquia e Catedral Nossa Senhora de Belém. Acesse: www.centralcultura.com.br/catedral. Lá você pode ouvir, assistir e ler mais sobre o bicentenário da Igreja